Get lost on the Galaxy Case

domingo, 9 de fevereiro de 2014

[+18] Aquilo que todo mundo faz, mas ninguém comenta

Ela limpa com a mão o sêmen do homem com o qual fez felação. O gordinho resolve tirar o pau pra fora e se masturbar ao ver uma linda mulher no meio de um grande festa. Loucas de amor, duas jovens garotas fazem o melhor sexo de suas vidas, esfregando suas partes íntimas uma na outra.



Essas poderiam ser cenas banais de qualquer filme pornô que ronde as bancas de jornais e/ou estão aos montes espalhadas pela Internet. Não é o caso. Elas referem-se aos filmes de rotação comercial que estão inundando as salas de cinema ultimamente, respectivamente Ninfomaníaca (Lars Von Trier), O Lobo de Wall Street (Martin Scorsese) e Azul É A Cor Mais Quente (Abdellatif Kechiche). Os longas retratam, ora de maneira crua, ora real e sensível, os prazeres humanos.

O que, de certa forma, choca um pouco é a linha tênue que os separam dos filmes pornôs convencionais. Notáveis cenas chegam ao limite do sexualmente visível e o que antes na história do cinema era enquadrado para deixar a imaginação do espectador fluir, agora não dá brechas a ele: é tudo muito explícito.

Lógico que existem truques cinematográficos, como próteses, enquadramentos perfeitos e dublês. E também não sou puritano para dizer que no cinema jamais houve anteriormente tentativas de aproximar o sexo técnico do mais possível do real, Último Tango Em Paris que o diga. Contudo, pasmo em ver, mesmo numa era de Whatsapps e sexo fácil pela Internet, diversos filmes que remontem o prazer sexual artisticamente cada vez mais acessíveis em salas comerciais comuns.

Também não questiono se essa técnica empobrece o teor dramático dos mesmos. Em Azul, por exemplo, as tórridas cenas ficam aquém da trama elaborada para dar atenção exclusivamente às nuances e reflexões das personagens de Adèle Exarchopoulos e Léa Seydoux - mesmo que essas adicionem uma pitada a mais ao filme. 

Azul: sensível aos sentimentos.

As atrizes (e todo o elenco, no geral) dão realmente vida aos seus papéis, trazendo aquilo que, talvez, o cinema francês consegue melhor expressar: o conteúdo humano. Ali estão o medo, a vontade, o prazer, o ciúme e o amor, elementos que fazem a história girar e nunca tropeçar em si mesma. Adèle é uma adolescente que está, aos poucos, descobrindo a paixão e outros desejos dessa fase da vida. Chega até ter um namorado, mas a atração que sente por Emma, uma garota de cabelo azul, parece ser mais forte do que tudo que jamais sentiu antes. E azul, que até então era associado a uma sensação fria e até melancólica, passa a ter um outro significado.

Joe tentando descobrir o que é o amor.

O ar cult dos longas pode ser fortalecido por cenas de sexo pesado e fazer seu próprio marketing, como é o caso de Ninfomaníaca, concebido para ser o Garganta Profunda do século XXI. Os dois filmes, no entanto, nada se parecem. Enquanto um é o clássico do gênero pornográfico, o segundo é uma espécie de drama melancólico, que utiliza de metáforas e questões filosóficas para embasar os motivos da protagonista Joe, interpretada pelas atrizes Charlotte Gainsbourg e Stacy Martin, de ter relações sexuais com diversos homens e se deleitar nos prazeres da carne. Os pôsteres do filme ilustravam os atores, como seus personagens, simulando um orgasmo - uma tática que deve ter levado vários ao cinema.

A esposa interesseira não vai mais usar calcinha dentro de casa e declara greve de sexo.


Inusitado foi ver o longa de Martin Scorsese, O Lobo de Wall Street, recheado de cenas maliciosas e, até, utilizando-se de próteses. O diretor, cujo A Invenção de Hugo Cabret ainda nos compadece com a questão da orfandade e espírito aventureiro, nos revela a devassidão da mente humana associada ao dinheiro fácil. Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) é um corretor que vende ações de empresas pequenas por altos preços, faturando, ilegalmente, é claro, com a ajuda de sua lábia de bom vendedor. Baseado em fatos reais, o filme narra as orgias promovidas pela empresa de Belfort (mas não só isso) a cada momento que se fechava um contrato de 10 mil dólares.


Enfim, o cinema está passando por uma revolução. Talvez não seja mais a hora de grandes produções apocalípticas, invasões extraterrestres ou raças de outro mundo, pelo menos, não por hora. Caminhamos, porventura, por uma trilha que ronda mais pelo labirinto dos prazeres sexuais do que épicas trilogias de tiroteios, chacinas e carros voadores. Talvez o público cresceu e está mais safadinho, querendo ver mais aquilo que todo mundo faz, mas ninguém comenta. Aquilo que as pessoas se deleitam e pelo o que são maníacas.

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