Get lost on the Galaxy Case

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Tanto na Crônica como no Teatro, Nelson Rodrigues retratou a nacionalidade

O texto abaixo é de minha autoria, como parte integrante da nota de Jornalismo Impresso da minha Universidade. Sou um leitor assíduo de Nelson Rodrigues e acredito que o dramaturgo ajudou a construir uma identidade cultural na sociedade brasileira. Sua obra, riquíssima em personagens profundos e questionadores, permeia os males já há muito conhecidos da humanidade, só que com a característica da situação se passar exclusivamente no Brasil, mais precisamente no Rio de Janeiro, centro intelectual, vou assim dizer, do país:


Como disse o filósofo Sartre, no livro “Em Defesa dos Intelectuais” (1994: 59) referindo-se ao jornalista noticioso, ele afirma que “escrevente se serve da linguagem para transmitir informação”, e faz um parâmetro com o escritor literário, dizendo que “é um artesão que produz um certo objeto verbal através de um trabalho sobre a materialidade das palavras, tomando como meio as significações e como fim o não-significante”.

O mundo do jornalismo é bem mais amplo do que reportar a notícia com o fato em si. A arte jornalística transcende essa limitação e esbarra-se muito confortavelmente na literatura, onde encontrará uma fonte inesgotável de ideias e reflexões. Sendo tão mais profunda a sua função social, alguns jornalistas criam o dom de transformar qualquer fato cotidiano simples numa imersão a um mundo de sentidos e vontades, tal como Nelson Rodrigues.

O jornalista nasceu em Recife no ano de 1912 e mudou-se para o Rio de Janeiro, então capital federal, com sete anos de idade. Nelson Falcão Rodrigues teve contato com o jornalismo desde menino, profissão que seu pai exercia e decidiu seguir seus passos. Conheceu o sucesso com suas peças de teatro – Vestido de Noiva, de 1943, é considerada marco zero do modernismo teatral brasileiro – e teve uma promissora carreira jornalística, atuando como cronista e comentarista. Fazendo um quadro um tanto quanto farsesco da sociedade brasileira da época, o dramaturgo retratou a burguesia carioca como nenhum outro o fez.

Minha coleção Rodriguiana, composta por 7 peças e antologia de contos
Eternizadas no livro “A Vida Como Ela É...”, as crônicas que o amante do Rio de Janeiro escreveu satirizavam a vida carioca ao mesmo tempo em que chocavam com a sociedade. Como o brasileiro tem costume de se autodefinir vira-lata, de nunca se valorizar, o dramaturgo tocava em assuntos como traição, deboche, ironia e escracho – tão puramente nacionais -, pois ele acreditava que dessa maneira suas palavras ficariam presas na mente das pessoas.

Uma das coisas que ele mais lutou e escreveu apaixonadamente era sobre futebol e as seleções que jogaram na Copa. Ele os apoiava, demonstrava sua paixão como ninguém através de crônicas que ficaram famosas no jornal Última Hora.

Nelson imprimia em seus personagens características puramente nacionais, que eram um espelho da condição das pessoas que estavam ao seu redor. “O dramaturgo refletiu o que viveu. Saiu de Recife e foi pro subúrbio carioca muito jovem. Muitas das suas características não se revelam apenas através do sexo e da traição, a morte também está muito envolvida em todos os seus trabalhos, inclusive no teatro”, afirma Raquel Brandão Inácio, repórter da revista Caras e formada em jornalismo na Universidade São Judas, em 2012, com projeto de Iniciação Científica sobre a obra de Nelson.

“Acho que a sociedade de antes se chocava muito, ainda mais quando o tema era a sexualidade, porém hoje, apesar de mexer com as pessoas, acredito que elas têm uma dimensão diferente do que o autor retratava. Embora escondamos algumas verdades, elas ainda existem e o mérito de Nelson, talvez, foi o de escrever sobre essas verdades e expô-las em sua obra”, finaliza Raquel.

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PS: Sim, voltei definitivamente com o blog Galáctica. :)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Pensamento e ato como forma de libertação dos valores morais e éticos

Eis que nem sempre os nossos atos se igualam aos nossos pensamentos. O pensamento, enquanto forma intocável, sem forma e obscura da profundeza humana, possui n camadas que se contrapõem e são concomitantemente paradoxais. Quer dizer, ato e pensamento são coisas distintas, embora saiam do mesmo núcleo intelectual. Ato é aquilo ou algo que terceiro veem e o pensamento é aquilo ou algo que apenas o eu interior é capaz de perscrutar e, muitas vezes, não o decifra.



Ação e reflexão são um dos pontos chaves do livro "Crime e Castigo" de Fiódor Dostoiévski (Moscou, 1821-1881). O escritor russo vagueia pela mente humana criando em seus personagens reflexões, cujo aspecto informe, mas questionador leva o leitor a meditar sobre a razão e ética enquanto ainda presas no pensamento.

O protagonista, Raskólhnikov, ex-estudante de Direito, que vive no subúrbio de Petersburgo sofrendo as mazelas de uma classe pobre e sem recursos, se vê na razão de assassinar a senhoria usurária a quem penhora seus últimos objetos de valor. Ao cometer o homicídio, Raskólhnikov sente-se completamente no direito de tê-lo feito, pois acredito que há dois tipos de pessoas: as ordinárias e as excepcionais, este grupo ao qual, obviamente, ele se encaixa. Assim, estaria isento das normas da Lei e de todas as outras arbitrariedades.

Não obstante com apenas essa face da personagem, Dostoiévski molda ainda mais a personalidade grosseira de Raskólhnikov, enxertando emoções que não condizem com sua pessoa vil e calculista. Ao descobrir que o bêbado com quem fizera amizade um dia no bar, Marmieladóv, morreu atropelado, dá seus últimos rublos à viúva do homem e à sua filha mais velha, que acabara por se tornar prostituta para ajudar a família carente.

Assim a pessoa de Raskólhnikov perambula por dois pólos distintos, o da avareza e o da gentileza - o que não o isenta, ao viver em uma sociedade, de qualquer lei que possa infringir direitos individuais de terceiros. O ex-estudante acredita apenas em sua soberania perante outros, e isso, por alguns momentos, deixa o leitor confuso com caminho percorrido pela personagem - não que isso destrua a longa narrativa dialogada escrita por Dostoiévski, pelo contrário, leva o leitor a uma viagem ao submundo da mente, onde o órgão que comanda é o coração, com suas próprias razões e motivos. O coração, sendo apenas impulso primitivo, não estende laços com valores morais e/ou éticos, por isso precisa ser comandado pelo cérebro. Raskólhnikov age pelo coração, logo, se torna vítima de suas próprias ações porque o que está em jogo é o poder da razão e não da vontade.